terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Gonçalves


“[...] a paisagem não é simplesmente vista, ela é habitada [...]a paisagem não é simplesmente habitada, ela é vivida [...]

No Catálogo da exposição de Iris Helena na Caixa Cultural de São Paulo (Práticas de arquivo morto), um texto da Karina Dias traz esse comentário de Michel Collot sobre paisagem.

Lembro, então, das paisagens mineiras de Gonçalves e da Terra dos Piuns, onde tem muito vagalume e mosquitinho, onde voam muitos pássaros que cantam pium, e vivem, habitam a paisagem, Armando e Fernando, amigos nossos... (Armando foi aluno de Francês da Nena, minha cunhada).

Araucárias, hortências (com c ou s? Lá aparecem as duas formas – mas as flores continuam misturando roxo, azul, creme), vales, riachos, cachoeiras, sauna, kalevala (mito finlandês que significa “paraíso’, explica Fernando), labirinto, cavalo que trota e é guiado, piano, rastelo, tucanos... Bonito! Paisagens, algumas, típicas de frio... Festas brasileiras, organizadas nos bairros...

Nomes que lembram histórias antigas... Barnabé, Forno, Chanfrada, Três Orelhas, Simão, Funil, Foice, Onças, Terra Fria, Atrás da Pedra... Nomes de gente que morava lá, como o próprio Gonçalves, os Henriques, os Martins...

Cidadezinha do interior, onde se fabricavam doces, licores, queijo. Artesanato. Fabricavam, antes do turismo rural que hoje domina a região. Nada contra o turismo rural, mas a favor da cultura local...

Muito paulista por lá, desde os anos 50, principalmente. Muitos ligados a atividades acadêmicas. Muitos artistas. Alguns cuidam das experiências culturais dos moradores. Outros, a maioria, não. A maior parte vem nos fins-de-semana, e volta para São Paulo.

O prefeito é do PSDB e parece ausente da vida local. O município tem menos de 5000 habitantes, então corre risco de ficar dependente de Paraisópolis, que fica a quase 30km.

Atrás da igreja que fica em frente na Hospedaria 123 (que já foi Amélia e Caminho da Roça), podem ser vistos os 3 montes que dão origem ao nome 3 Orelhas. Existem histórias a respeito,
mas circulam entre os novos habitantes como se fossem estórias.

Em frente à Igreja há uma pracinha desocupada (a não ser pelos aviões de isopor e papelão montados pelo meu irmão e dirigidos pelos netos dele, lindos), cercada de casas.

Lá mora a Natiele, que estuda Psico-Pedagogia e é bastante crítica da situação de Gonçalves e do País, e conhece sua cidade. “Todo mundo é parente aqui”. Quer, depois de formada, abrir uma escola em Gonçalves, “onde haveria espaço para as histórias do povo”.

Passamos o Natal em São Paulo, com a família (menos a Bruna e o Gabriel, que estavam na Bahia com amigos), e fomos a Gonçalves para a virada do ano, também com a família. Teve passeios, piano, carnaval. Lá em Lajedo, lá na Terra dos Piuns.

Marcelo levou charutos para a virada na casa dos Piuns. Faltavam folhas para enrolar os charutos. Seo Antônio, do restaurante Atrás da Pedra (a Pedra é a Chanfrada) conseguiu folhas de parreira. Uma hora, ele-SeoAntônio disse que tinha que “fazer um servicinho” no restaurante, porque tinha alguém substituindo ele, e “tem muito trabalho lá”.  Ele é o dono das terras todas dali...


                                           seo Antônio e seu "servicinho" no restaurante Atrás da Pedra


Foi bom, encontrar a família e ir lá e a Gonçalves...

Pena a Bruna e o Gabriel não estarem...

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