quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

voz alta


Sabe aquelas pessoas que ficam geralmente sozinhas no meio de uma praça, ou num gramado (ainda seco, ou talvez verde, depois da chuva), falando alto,  e que são chamadas de “loucos” por quem não fala alto?
Muitas vezes falam em Deus, ou trazem mensagens moralistas, ou falam das misérias do mundo, ou das possibilidades de salvação...
Pois é: aqui na quadra de vez em quando aparecem.
Hoje tem um, mas não consigo entender a mensagem que traz. Só sei que fala alto e incomoda os vizinhos.
Tenho medo é dos vizinhos.

Rádio MEC


Eu pegava carona com o Alberto (filho da tia Ezir), que ia para o Banco do Brasil, fazia com ele trajetos nem sempre diretos, e à tarde voltava para casa e ia para a Rua do Bispo, onde funcionava a Faculdade do Estado da Guanabara, onde estudava Ciências Sociais.
Nesse tempo trabalhava na Rádio MEC, que era na Praça da República (Campo de Santana), perto da Casa da Moeda.
Um dia desses vi uma entrevista com Cleonice Berardinelli, com quase 98 anos, professora de Letras. Lembro dela lá na Rádio MEC, mas ela nem olhava para mim, datilógrafa sem importância que eu era.
Lembro também do “maior poeta vivo do Brasil”, Carlos Drummond de Andrade. Ele me alertava quanto ao então diretor da Rádio (Eremildo Luís Viana): “você é novinha, estuda Sociologia e sai comigo... Ele é professor de História, daqueles antigos, da Universidade do Brasil... Foi colocado como diretor aqui, pela ditadura... Cuidado!”  Drummond passeava comigo na Praça da República, e uma dia foi lá no último andar, na oficina do luthier seo Guido Pascoli. Levava livros para mim.
(Pedi para me dizerem quem estava na Rádio: a Cleonice Berardinelli, o Isaac Karabchevsky, o locutor Moisés Nobre Leão, o Alceo Bochino... Foi assim que conheci, numa sexta-feira (dia em que ele assinava ponto),  “o maior poeta vivo do Brasil’, como disse o Pontual – colega da Rádio – se referindo ao Poeta, que estava atrás de mim... Na sexta seguinte levei o livro Fazendeiro do Ar, encadernado em verde, com as iniciais douradas do Vô, para ele autografar. Contei que gostava daquele livro. Ele, mais que autografar, fez uma dedicatória. Quando eu contei que ia para Brasília, casada com um xará dele, ele comentou: “Que xará bobo, levar você para aquela terra com tanta luz, mas que tem edifícios com vidros, que não deixam a luz passar...” )
Lembro também da Maria Helena, da d.Gioia, do Dieter Lazarus (era do Corpo de Bombeiros; fui pesquisar no Google, e encontrei o nome dele numa transcrição da Congada, de Francisco Migone) do Zezinho-fotógrafo , do Ubaldo (que trabalhava também na Penitenciária Lemos de Brito e fez lá os poucos convites de casamento com Carlos...) e  de outros. E da irmã da Regina, Dalila, que me levou para lá.
Vimos (Ana-filha e eu) um documentário sobre Fernanda Montenegro que mostra a Rádio MEC, na Praça da República, onde ela trabalhou como locutora, com uns 15 anos... Ana me ligou avisando e comemorando.
(Muita gente que depois se firmou como artista, passou pelos microfones da Rádio: sei da Fernanda Montenegro, da Odette Ernest Dias...)

Ana e Bruna: arco-íris


Ana, Bruna: arco-íris
Seriam quatro filhos: um menino, três meninas. Antes da Ana veio o Gregório, antes da Bruna veio a Lílian.
Esse assunto tão difícil foi tema de uma reportagem do Correio, hoje: Depois da tempestade, o arco-íris. Trata de “mães que tiveram uma ou mais perdas gestacionais [e que]
contam as dificuldades em um dos momentos mais dolorosos e a volta por cima com o nascimento de seus bebês”.
Nem conheci o Gregório, que foi embora da vida pouco antes de nascer. Conheci a Lílian, que era do dia primeiro do ano e nem chegou a completar um ano de idade. Lutos rapídos.
De acordo com a reportagem, Ana e Bruna seriam “arco-íris”.
Quando perdi – ganhei – o Gregório, pensei que nunca mais iria engravidar. Pensei então em adotar.
Depois pensei que aquilo era uma espécie de vacina – nunca iria acontecer de novo.
Depois da partida da Lílian, pensei que nunca iria acontecer nada de mal com as meninas. Penso ainda – e espero.


A reportagem
Depois da tempestade, o arco-íris
Mães que tiveram uma ou mais perdas gestacionais contam as dificuldades
em um dos momentos mais dolorosos e
a volta por cima com o nascimento de seus bebês

» CAROLINE CINTRA
Publicação: 13/02/2020 04:00        

“Saí de casa grávida de três meninos e voltei sem nenhum deles nos braços. Olhava para a casa, para o colo, para o quarto,
não os via. Entrei numa depressão muito forte. Mas decidi não desistir de um sonho. Ainda durante o luto, após seis meses,
engravidei do meu arco-íris.” O depoimento é da cantora Giselle Cândido, 30 anos. Ela perdeu trigêmeos em março de 2018.
Hoje, com Isaac Noah, de 8 meses, nos braços, ela ajuda mulheres que enfrentam ou enfrentaram a mesma dor,
por meio das redes sociais.

Os bebês arco-íris são aqueles que nascem após uma ou mais perdas gestacionais, seja por problemas de saúde, seja por aborto espontâneo.
“É uma dor que ninguém consegue mensurar, só quem passa por aquilo. Às vezes, nem o próprio companheiro sente o que sentimos.
Com fé e perseverança, estou com meu Isaac”, diz.

Giselle lembra que se preparou por um ano para ser mãe. Era um sonho dela e do marido. Ao completar 19 semanas — o equivalente a cinco meses de gestação —,
foi a uma consulta e descobriu que estava com Insuficiência Istmo Cervical (IIC), condição em que o colo do útero reduz de tamanho e se dilata antes do fim da gravidez.
Ela passou por um procedimento e ficou internada por 30 dias, mas o colo não resistiu e José Heitor, José Bernardo e José Emanuel nasceram prematuros.
Dois deles sobreviveram por 15 horas. O terceiro, por quatro dias. “Foi um processo de luto muito difícil. Mas, depois de seis meses, estava grávida novamente.
Foi uma mistura de sentimentos. Estava sofrendo pelos filhos e feliz pelo que estava por vir. Um nunca substitui o outro”, afirma a cantora. 
Desde que engravidou dos trigêmeos, ela relata tudo em uma página do Instagram. Após a perda dos meninos e o nascimento de Isaac, a conta na rede social passou a se chamar 3anjose1arcoiris. Depois de conhecer várias mulheres na mesma situação, começou o projeto Mães de Arco-íris para ilustrar a esperança após uma perda gestacional.

Apoio

Uma iniciativa da Secretaria de Saúde de práticas integrativas auxilia muitas mulheres a superar o luto causado pela perda de um bebê.
Estudos variados apontam que em torno de 20% das grávidas têm a gestação interrompida de forma espontânea antes da 12ª semana de gravidez.
Quando isso acontece até a 22ª semana, denomina-se perda gestacional precoce. A partir daí, perda gestacional tardia.
A morte neonatal corresponde ao falecimento do recém-nascido até os 28 dias de vida completos.

“É comum as mães relatarem a frieza, inclusive de profissionais de saúde, principalmente quando a perda é no início da gestação. Dizem coisas do tipo:
‘Logo você engravida de novo’. Tratam o ocorrido com certa indiferença só porque você não conheceu aquela criança. Mas, desde que você engravida,
você já ama o seu filho”, relata a servidora da pasta Filomena de Oliveira Cintra e Silva, 43, que teve duas perdas gestacionais.

Ela conta que sonhou que teria três filhos. Duas meninas e um menino. Hoje, ao lado dela e do marido está apenas Catarina Prema, 8.
Os outros dois, Alexis e Isaac Felipe, ela chama de bebês-estrela. “Eu não vou tentar mais, porque meu sonho se realizou. Tive minhas duas meninas e meu menino”, disse.

Em razão do Dia Internacional de Conscientização da Perda Gestacional e Infantil, lembrado em 15 de abril,
e baseado na própria experiência, a servidora criou o projeto Vozes do Silêncio. Nele, faz um recorte de frases de mulheres que perderam os bebês durante a gestação ou logo após o nascimento.
“É importante conscientizar profissionais de saúde, familiares e amigos, pois, devido à falta de sensibilidade, muitos pais se recolhem e vivem a dor sozinhos.
Há o risco de desenvolver uma depressão e outros problemas relacionados à saúde mental”, ressalta.

Vitória

Após seis anos de casada, a dona de casa Natália Lima de Castro, 35 anos, decidiu ter o primeiro filho.
À época, aos 26, ela nunca tinha falado sobre o assunto com o marido. Passados oito meses, o casal recebeu a notícia tão esperada, a gravidez.
Cuidadosa, ela teve acompanhamento médico desde o início.

“Foi uma gestação normal, exames ok, ecografias em dia, tudo certo”, lembra. Ao completar 17 semanas, ansiosa para saber o sexo do bebê, foi ao hospital.
“Foi constatada anencefalia (malformação do cérebro). Meu chão caiu naquele momento. Eu tinha que decidir entre dar continuidade à gestação, com riscos, ou induzir o parto. Tive que escolher a segunda opção”, disse. Para ela, apesar de nunca ter carregado nos braços, Rafaela, como se chamaria a primogênita, é uma filha amada.
Mesmo depois da dor, o casal não desistiu. Cinco meses mais tarde, recebeu a notícia de nova gravidez. “No início, deu um pouco de medo reviver tudo aquilo, mas deu tudo certo. Tivemos nossa primeira filha e, depois de quatro anos, a segunda. Para celebrar, colocamos Victória no nome das duas”, conta.
Natália ressalta que o apoio da família foi essencial nas duas fases. “Nada que alguém fale vai mudar o que a gente sente. Só a mãe de um bebê que morreu sabe a dor. Mas quando a gente consegue carregar o filho no colo é muito especial. Sou muito babona hoje. Nunca tive muito apego com crianças. Depois de mãe, dou todo o carinho para minhas filhas. A mais velha, minha arco-íris, de 7 anos, eu chamo de bebezão até hoje. São minhas bonecas.”

Esperança

A ginecologista da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida (SBRA) Natália Paes Barbosa explica que uma perda isolada é comum.
Em caso de duas ou mais, a paciente deve passar por uma investigação que aponte a causa. Ela ressalta que uma gestação após um aborto, por exemplo, deixa a mãe ainda mais ansiosa. “Cada exame, cada fase é uma angústia. Ela se preocupa mais, tem pensamentos negativos, já chega achando que vai dar errado. É um misto de emoções.”
No entanto, a especialista ressalta: “A mulher nunca deve desistir”. Ela destaca que, assim como um arco-íris aparece depois de uma forte chuva, o filho depois de uma ou mais perdas vêm para trazer esperança. “É importante lembrar do lado emocional. Buscar apoio com um psicólogo, parceiro, família, amigos, pessoas que entendam o momento. E manter a esperança sempre”, completa.


Cinco perguntas para Lia Clerot, psicóloga

Como uma mãe pode superar uma ou mais perdas gestacionais?
A perda de um bebê é um processo de luto. Mesmo que seja alguém que ela não chegou a conhecer, é um ser pelo qual nutria sentimentos de amor e de esperança,
por quem fazia planos e transformava a vida para sua chegada. Cada mulher reage de uma forma e precisa de seu próprio tempo para lidar com o luto.
Nessa hora, o apoio dos entes queridos é fundamental para auxiliar, inclusive para perceber se o quadro está se agravando e requer intervenção profissional.

Qual o papel da família e dos amigos nessa fase?
É fundamental. Ninguém sentirá a dor de forma tão intensa como aquela que carregava o bebê em seu ventre e que mais passava por modificações, sejam físicas,
sejam emocionais e sociais. Mas aqueles que a cercam precisam dar o apoio necessário, principalmente demonstrando a empatia pelo bebê que se foi. Não se deve falar em substituições, que ela pode ter outros filhos, pois para ela aquela criança era única e insubstituível. Conselhos simplistas e reducionistas, como “supera isso”, “segue em frente”, podem diminuir aquilo que ela estava sentindo. Esconder e evitar o assunto também não é recomendável — o luto é um processo que precisa ser superado, e não ignorado. Ajude-a a retomar a rotina, converse sobre seus sentimentos e emoções e, principalmente: ouça o que ela tem para dizer.

Manter a esperança é o ideal nesse momento?
A perda da esperança é o que muitas vezes pode levar a quadros de depressão, ansiedade e outros transtornos mentais e até problemas de saúde física. Nessas horas, é importante se valer de fontes de esperança, que para alguns pode vir da família, amigos, religião, leitura de materiais de apoio, hobbies, enfim, aquilo que dê alento e conforto.

Ter acompanhamento com um especialista, como um psicólogo, por exemplo, é importante?
O acompanhamento profissional pode ser necessário. Aos primeiros sinais de perda de controle emocional, é indispensável auxílio de um profissional de saúde mental. A perda do bebê pode ter provocado inclusive alterações físicas e hormonais que requerem um acompanhamento médico de perto.

Como os pais devem tratar o bebê arco-íris?
Os pais precisam entender que ele, assim como o bebê que se foi, é um ser único e deve viver a própria vida. O excesso de expectativas e a angústia sofrida podem sufocar a nova criança. Pais superprotetores, por vezes, tiram o direito de errar, de cair e com isso evitam que a criança aprenda uma coisa nova. Além disso, com o passar do tempo, pode gerar uma criança frustrada por não alcançar as expectativas da família.
 

sábado, 8 de fevereiro de 2020

trajetória "profissional"


Entrei no Ministério do Interior em 1973, como Técnica de Planejamento (dizia-se “técnico” porque nessa época ainda não havia a expressão “analista”), socióloga, concursada, com Curso de especialização de quatro meses no CENDEC (Centro de Treinamento para o Desenvolvimento Econômico e Social), do Ministério do Planejamento. Éramos inicialmente cento e setenta técnicos de planejamento (os TP´s – P-1501), do Sistema Nacional de Planejamento (sistema pioneiro, formalizado há muito tempo – mais de 40 anos! - em lei de 1975), todos formados, de nível superior (em áreas como Sociologia, Geografia, Economia, Administração, recrutados em Brasília, no Rio, em São Paulo, em Belo Horizonte), concursados, alguns com pós-graduação.
Em 1998 fomos alocados no Ministério do Planejamento. Hoje estou aposentada.
Os tempos mudaram. O Ministério do Planejamento se transformou em uma parte do Ministério da Economia. (Peso relativo do planejamento?)
Infelizmente até hoje não somos reconhecidos como do “ciclo de gestão” ou como “carreira de Estado”. Os argumentos para as negativas da “reclassificação” (argumentos utilizados pela Procuradoria Geral da República, pelo Superior Tribunal Federal, pelo Tribunal Superior do Trabalho, e por outras instâncias) ainda é aquela de “não sermos de nível superior”. A questão de “não sermos concursados” foi esclarecida em Memorial junto ao STF; não existe mais. Somos “concursados” sim: selecionados em curso!
Espero que ainda em vida seja reconhecida como integrante de carreira – carreira de Analista de Orçamento e Planejamento.

MINTER, IPEA, Ministério da Agricultura, LBA, MEC
Após um período inicial no Ministério do Interior, com os demais TP’s que tinham escolhido ir para lá, entrei para o Programa Nacional de Migrações Internas (para onde queria mesmo ir - razão de minha escolha pelo MINTER).
Lá, com o Dr. George Martine (demógrafo, das Nações Unidas) e outros profissionais, participei da construção de políticas públicas para migrações internas.
Fiz parte do SIMI (Sistema de Informações sobre Migrações), projeto que registrava, quantitativa e qualitativamente, números e comentários de migrantes sobre seus processos de deslocamento, e avaliava a importância do processo de migrações internas para o País. Ali, aprendi não só a lidar com estatísticas e pesquisas qualitativas, mas também a fazer simulações e “treinar” as equipes regionais. Era importante, o SIMI, não só para o País, como para mim, então estudante de Ciências Sociais, aprendendo e ensinando.
Também participei dos CETREMI (Centros de Treinamento em Migrações Internas), que eram construções, em lugares-chave como etapas de migrações, onde se acolhiam provisoriamente e treinavam migrantes para a nova vida que os esperava. Histórias de coragem, bonitas.
Depois, acompanhei Dr.Martine para o IPEA (instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), do então Ministério do Planejamento. Nessa época, escrevi vários artigos com ele, sobre migrações internas. Aprendizado, vivência.
Fui em seguida para o Ministério da Agricultura, onde coordenei equipes responsáveis pela avaliação de políticas públicas de agricultura. Foi lá que conheci o primeiro Plano de Reforma Agrária. Estive sempre em contato com pessoas (técnicos, estagiários, assentados, produtores rurais sem terra), aprendendo a valorizar a Administração Pública.
Na LBA e no MEC, para onde fui depois, aprendi a acreditar em projetos integrativos, como os CAIC (Centros de Atendimento Integral à Criança e ao Adolescente). Tratava-se de construções em que várias atividades pedagógicas eram oferecidas aos moradores (não só aos estudantes), geralmente de comunidades pobres, junto com serviços de Saúde, Alimentação, Suporte Tecnológico, Esporte, Cultura, durante todo o dia. Muito desafiador - atividade de Educação Integral, importante naquele momento político - e preparadora para atividades que vim a desempenhar (e continuo a fazer, fotografando, escrevendo, publicando livros e artigos!). Essa atividade envolvia também construções, o que fazia necessário conviver com empresários, o que me fez desenvolver comportamentos éticos. Existem até hoje, alguns Caic's.
Resumindo: nesse tempo de Serviço Público, trabalhei em projetos relativos a migrações internas, agricultura, educação. Convivência...

Na vida
Serviço público...
Público, porque é pago por todos e se destina a todos... Sempre me lembrava disso, porque meu Avô pensava e agia assim... Mais tarde encontrei mais gente desse jeito, como o professor Aldo Paviani, que na Católica não quis receber os aplausos, porque “não estava fazendo nada de mais; era pago para isso, para mesmo depois de aposentado continuar fazendo serviços públicos”...
Ao mesmo tempo, eu engravidava, cuidava das meninas, cursava Sociologia, via o que me rodeava com olhar de curiosidade, fotografava, dava aulas, escrevia... Penso que o que fazia no Serviço Público era o mesmo que fazia no Serviço digamos Cotidiano...


terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

aflição


Ontem estava procurando o carregador de celular da Ana e da Bruna.
Costumo ter aqui em casa também, mas de vez em quando some. De vez em quando elas levam, emprestado.
À noite recebi uma mensagem contando que a Ana estava sem celular; o cabo de carregar (de metal, para os gatinhos não morderem), e o powerbank, e os dedos da Ana, tinham queimado.
Aflição, não poder falar com a Ana... ...
Assim, ela não podia carregar o celular...
E não tem telefone fixo na casa dela...
(é, celular tem suas vantagens...)
Felizmente deu tudo certo depois: cabo novo, celular carregado, comunicação restabelecida...

Ladrão II


Corri muito risco no “55”. Risco físico. Por exemplo: quando ia fechar a janela do escritório ou as janelas da sala, podia ter “alguém” lá fora e que atacasse aquela menina, para entrar na casa.
Uma vez eu estava no quarto e vi um homem pular do prédio ao lado (era do Seo Adalberto, um bombeiro – existe ainda?  é o encanador?) Mas eu achava que encostar a janela era suficiente para evitar todo mal...
A Vó também correu muito risco. Ela era boa demais; acreditava que “todo mundo era bom”, e que no mundo havia muito mais gente boa que má... Lembro que uma noite telefonaram lá para casa, avisando que um cidadão tinha pulado para o quintal e dali seria fácil entrar na casa. A Vó abriu a porta de trás e falou com ele: “O senhor é o ladrão? Venha tomar um café, comer um bolo... E quando sair, não pule de volta não... Eu abro o cadeado e você sai pelo portão, na frente da casa...”
Mas uma vez veio um grupo de meninos, atacaram a Vó, ela ficou bem machucada.

Hoje sinto medo, vem a imagem das janelas e dos meninos...  Mas é um medo fora de tempo...

Ladrão I



Aprendi na Avenida Mello Mattos o que era “avenida”: podia ser curtinha com era, mas tinha duas mãos e uma alameda separando cada mão. 
Era na Tijuca, no Rio. Muitos domingos íamos lá, para visitar as tias Juanita e Deola e tia Zayde e a bisa Maria Augusta, Mãe da Vó. E o tio Venancinho.
Um desses domingos paramos do outro lado da casa que chamávamos o “54”.
Surpresa e medo atual: encostado no portão estava um rapaz mulato (só reparei nisso agora), olhando para mim e deixando visível para fora da calça o pênis dele.
A Vó, nem o Vô, nunca tinham me contado sobre isso. Do mal, eu só conhecia “ladrão”. E lembro que fiquei preocupada com aquelas mulheres todas, “desprotegidas”, à mercê daquele “ladrão”. Não podia, mesmo, pensar outra coisa.
Durante muito muito tempo não pensei nisso. Agora veio essa imagem.

Gonçalves


“[...] a paisagem não é simplesmente vista, ela é habitada [...]a paisagem não é simplesmente habitada, ela é vivida [...]

No Catálogo da exposição de Iris Helena na Caixa Cultural de São Paulo (Práticas de arquivo morto), um texto da Karina Dias traz esse comentário de Michel Collot sobre paisagem.

Lembro, então, das paisagens mineiras de Gonçalves e da Terra dos Piuns, onde tem muito vagalume e mosquitinho, onde voam muitos pássaros que cantam pium, e vivem, habitam a paisagem, Armando e Fernando, amigos nossos... (Armando foi aluno de Francês da Nena, minha cunhada).

Araucárias, hortências (com c ou s? Lá aparecem as duas formas – mas as flores continuam misturando roxo, azul, creme), vales, riachos, cachoeiras, sauna, kalevala (mito finlandês que significa “paraíso’, explica Fernando), labirinto, cavalo que trota e é guiado, piano, rastelo, tucanos... Bonito! Paisagens, algumas, típicas de frio... Festas brasileiras, organizadas nos bairros...

Nomes que lembram histórias antigas... Barnabé, Forno, Chanfrada, Três Orelhas, Simão, Funil, Foice, Onças, Terra Fria, Atrás da Pedra... Nomes de gente que morava lá, como o próprio Gonçalves, os Henriques, os Martins...

Cidadezinha do interior, onde se fabricavam doces, licores, queijo. Artesanato. Fabricavam, antes do turismo rural que hoje domina a região. Nada contra o turismo rural, mas a favor da cultura local...

Muito paulista por lá, desde os anos 50, principalmente. Muitos ligados a atividades acadêmicas. Muitos artistas. Alguns cuidam das experiências culturais dos moradores. Outros, a maioria, não. A maior parte vem nos fins-de-semana, e volta para São Paulo.

O prefeito é do PSDB e parece ausente da vida local. O município tem menos de 5000 habitantes, então corre risco de ficar dependente de Paraisópolis, que fica a quase 30km.

Atrás da igreja que fica em frente na Hospedaria 123 (que já foi Amélia e Caminho da Roça), podem ser vistos os 3 montes que dão origem ao nome 3 Orelhas. Existem histórias a respeito,
mas circulam entre os novos habitantes como se fossem estórias.

Em frente à Igreja há uma pracinha desocupada (a não ser pelos aviões de isopor e papelão montados pelo meu irmão e dirigidos pelos netos dele, lindos), cercada de casas.

Lá mora a Natiele, que estuda Psico-Pedagogia e é bastante crítica da situação de Gonçalves e do País, e conhece sua cidade. “Todo mundo é parente aqui”. Quer, depois de formada, abrir uma escola em Gonçalves, “onde haveria espaço para as histórias do povo”.

Passamos o Natal em São Paulo, com a família (menos a Bruna e o Gabriel, que estavam na Bahia com amigos), e fomos a Gonçalves para a virada do ano, também com a família. Teve passeios, piano, carnaval. Lá em Lajedo, lá na Terra dos Piuns.

Marcelo levou charutos para a virada na casa dos Piuns. Faltavam folhas para enrolar os charutos. Seo Antônio, do restaurante Atrás da Pedra (a Pedra é a Chanfrada) conseguiu folhas de parreira. Uma hora, ele-SeoAntônio disse que tinha que “fazer um servicinho” no restaurante, porque tinha alguém substituindo ele, e “tem muito trabalho lá”.  Ele é o dono das terras todas dali...


                                           seo Antônio e seu "servicinho" no restaurante Atrás da Pedra


Foi bom, encontrar a família e ir lá e a Gonçalves...

Pena a Bruna e o Gabriel não estarem...

O Gustavo


Amigo do Jairo e do Miltinho...
Minha Avó achava eles (o Gustavo e o Jairo) bonitos...
Encontrei uma foto do Gustavo, mas não me lembro quem a fez... (podia ser o Jairo, poderia ser até eu). Era com cigarro...
Sei (ele me disse) que o povo da casa dele não o reconheceu...

caçador


Depois de muito tempo, resolvi hoje atualizar o SpyHunter que está no micro para caçar malware.
Não resisto e fico vendo a evolução do processo. É rápido... 40%, 57%, concluída...
Parece Língua Brasileira de Sinais, bem rápida... (quando alguém fala depressa em Língua Brasileira...)
Por que? Sei não, só sei que é assim....

Marco Aurélio


Reverencio sempre a assistente social que insistia em saber quem era a terapeuta (seria o terapeuta?) que me atendia, e que me deixava “tão calma”... Quando desistiu de receber como resposta “não tenho nem tive terapeuta”, ela disse: “Quando precisar, procure meu colega de turma Marco Aurélio Bilibio, que está te esperando...”
Muito tempo depois, o próprio Marco me telefonou: “Então: você não vem não?”
Fui, afinal. Era a casa dele. Lembro de uma sala grande, de um tapete branco...De
 um anel perdido... E de longos silêncios...
E das meninas na Sociedade Teosófica, meus Pais assistindo elas comerem sal, as espadas do Bem... Corte do Rei Arthur... Mais tarde a Ana=filha foi a uma oficina com ele, em que ele exercitava o método “focusing” – focalização.

Reeencontrei o Marco Aurélio nos tempos do CET, ele fazendo Doutorado no CDS, sobre Eco-Psicologia, com orientação do professor Othon Leonardos. A tese se chamava  “De frente para o espelho: ecopsicologia e sustentabilidade.

Depois o vi várias vezes por aí, mas não cheguei a falar com ele.

Ontem fui vê-lo especialmente, numa palestra (Encontrando paz na era da incerteza”) do Mogauma/Movimento Global de Autoconhecimento e de Mútua Ajuda. Surpresa: ele me reconheceu, mesmo depois de tantos anos, e sabia que a Ana é minha filha...

Deus me vê


Deus me vê...
Nunca tinha lido isso, nem visto em nenhuma sala de aula nem em qualquer sala...
A primeira vez que vi foi na sala de aula da D.Zélia, professora nova de quando fomos da Penha para a Tijuca, na Escola 1-7 Francisco Cabrita. Não nos ensinavam quem tinha sido Francisco Cabrita. Hoje sei (pelo google) que se chamava José, nasceu no dia do aniversário do meu Vô, era africano, e professor e espírita. Viveu em Portugal.
Logo na segunda-feira em que cheguei, vi que as pessoas mentiam: “Quando ela perguntar se você foi à missa ontem, diz que foi, senão ela te põe de castigo” – disse o coleguinha mais experiente.
“Ainda mais tem óculos...” - disse D.Zélia, quando eu quis sentar na fileira da frente. Não sentei, mas lá no final da sala, na quarta ou quinta fileira, estava do meu lado o menino mais lindo e bagunceiro da turma. Dividia o lanche de bananadinhas com ele. Minha tarefa era “tomar conta dele”.
Não sentia culpa de ler bem e tirar notas altas. Só mais tarde é que reparei que a filha de uma mãe que ajudava nas festinhas era a “primeira da turma”, e que esse equilíbrio não devia ser quebrado. Eram as pequenas corrupções.
Tínhamos o caderno “meu amigo”, em que apareciam perguntas que iam cair na “prova”. Repetição. Acho que foi aí que comecei a ver que, se fosse professora, seria tudo diferente.
Menos a “preocupação ambiental” da escola. Era “caxinguelê”, menina responsável pelas plantas e animais. “Não pode deixar ninguém quebrar galho, machucar folha, correr atrás de cachorro...” Tarefa difícil, naqueles tempos. Feita seriamente. Sabia que não podia; afinal, vinha de uma Escola de Horticultura... Para “ser respeitada”, tinha uma rodinha marrom de feltro, no bolso do uniforme.

bom dia


“Quando você chegar em casa, não mostra isso (um embrulho pendurado na bicicleta que ele pedalava) a niguém, viu? Quero esconder!”
- conversa avulsa, quando voltava pra casa –
A mãe deles – eram irmãos, o Rafael e a menininha – me disse “bom dia!”.
(muita gente diz “bom dia”; retribuo.)

blog


Continuo escrevendo... (atividade boa para a memória, me dizem)
Mas agora os escritinhos não vão virar livro não, como os primeiros...
Vão virar blog, sugere o Gabriel...